Quais são os principais desafios para sobreviver e crescer?
Empreender no Brasil parece, muitas vezes, uma mistura de coragem, necessidade e persistência. Para milhões de brasileiros, abrir um pequeno negócio não significa apenas buscar lucro ou independência financeira. É também uma maneira de criar a própria fonte de renda diante de um mercado de trabalho que nem sempre oferece oportunidades suficientes.
Por trás de uma pequena loja, de um vendedor pela internet, de uma manicure, de um profissional de manutenção, de um motorista, de um pequeno restaurante ou de alguém que trabalha por conta própria existe uma realidade que nem sempre aparece nas estatísticas: muitas vezes, o empreendedor é responsável por vender, comprar, divulgar, atender clientes, controlar o caixa, pagar impostos e ainda cuidar da própria família.
Os números mostram a dimensão desse fenômeno.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria em 2025, número que representa crescimento de 30,4% em relação a 2012. No mesmo ano, a taxa anual de informalidade ficou em 38,1% da população ocupada.
Já dados divulgados pelo Sebrae apontam que o Brasil ultrapassou 12 milhões de Microempreendedores Individuais (MEIs) em 2025, representando aproximadamente metade das empresas em funcionamento no país.
Esses números deixam uma pergunta importante: se o pequeno empreendedor possui tanta importância para a economia brasileira, por que ainda enfrenta tantas dificuldades para sobreviver e crescer?
O pequeno empreendedor é importante para a economia brasileira
É difícil falar sobre a economia brasileira sem falar dos pequenos negócios.
Microempreendedores Individuais (MEIs), microempresas e empresas de pequeno porte movimentam comércio, serviços, indústria, alimentação, transporte, tecnologia e diversos outros setores.
De acordo com o Sebrae, MEIs e donos de micro e pequenas empresas geraram uma renda estimada de R$ 717 bilhões em 2024. Apenas os MEIs em atividade representaram aproximadamente R$ 224 bilhões por ano em renda gerada pela atividade empresarial.
Isso mostra que o pequeno negócio não é apenas uma atividade individual.
Quando um empreendedor vende um produto, ele compra de fornecedores. Quando contrata um serviço, movimenta outro profissional. Quando aluga um estabelecimento, movimenta o mercado imobiliário. Quando compra equipamentos, movimenta a indústria e o comércio.
Existe, portanto, um efeito multiplicador.
Por isso, discutir as dificuldades do microempreendedor brasileiro também significa discutir emprego, renda, consumo e desenvolvimento econômico.
1. A burocracia ainda pesa sobre o pequeno empreendedor
Abrir um negócio ficou mais simples em comparação com décadas atrás, principalmente depois da criação do MEI.
Entretanto, abrir a empresa é apenas o começo.
Depois que o CNPJ é criado, começam obrigações relacionadas a pagamentos, declarações, notas fiscais, regras municipais, estaduais e federais, licenças, contratação de funcionários, controle financeiro e outras exigências que podem ser difíceis para quem trabalha sozinho.
O problema não é necessariamente existir uma regra.
Empresas precisam cumprir obrigações fiscais, sanitárias, trabalhistas e administrativas. O problema aparece quando o custo e a complexidade dessas obrigações são desproporcionais ao tamanho do negócio.
Uma grande empresa normalmente possui contador, departamento financeiro, jurídico e profissionais especializados.
O microempreendedor muitas vezes possui apenas ele próprio.
Essa diferença é fundamental.
O empreendedor acaba sendo vendedor, contador e administrador
Imagine uma pessoa que trabalha oito horas por dia vendendo produtos.
Depois do expediente, ela ainda precisa:
verificar pagamentos;
controlar estoque;
calcular custos;
responder clientes;
emitir documentos;
divulgar produtos;
negociar com fornecedores;
acompanhar impostos;
organizar contas;
pensar nas vendas do dia seguinte.
Isso significa que parte significativa do tempo do empreendedor pode ser consumida por atividades administrativas em vez de atividades diretamente relacionadas ao crescimento do negócio.
2. A falta de capital de giro é um dos grandes problemas
Um dos maiores erros de quem começa a empreender é acreditar que faturamento significa lucro.
Não significa.
Uma empresa pode vender R$ 20 mil em determinado mês e ainda assim terminar o período com pouco dinheiro disponível.
Existem custos com:
mercadorias;
aluguel;
energia;
internet;
funcionários;
impostos;
transporte;
taxas de cartão;
plataformas;
publicidade;
manutenção;
empréstimos;
fornecedores.
O que sobra depois de tudo isso é o resultado real do negócio.
O problema fica ainda maior quando o empreendedor precisa comprar mercadoria antes de receber pelas vendas.
Esse é o chamado capital de giro.
Sem uma reserva financeira, qualquer imprevisto pode transformar um mês ruim em uma crise.
3. Crédito pode ser difícil e caro
Outro desafio é conseguir dinheiro para investir.
O empreendedor pode precisar de recursos para comprar estoque, adquirir equipamentos, reformar o estabelecimento, investir em publicidade ou simplesmente atravessar um período de vendas fracas.
Mas conseguir crédito não é igual para todos.
Instituições financeiras analisam histórico, faturamento, garantias, capacidade de pagamento e outros fatores.
Um pequeno empreendedor que acabou de abrir sua empresa pode não possuir histórico suficiente para conseguir boas condições.
Quando o crédito aparece com juros elevados, surge outro problema: a parcela passa a consumir parte da margem do negócio.
Assim, o crédito que deveria ajudar a empresa a crescer pode acabar aumentando o risco financeiro.
4. A concorrência aumentou
O pequeno comércio brasileiro também enfrenta uma transformação importante.
Hoje, o consumidor pode comparar preços em poucos segundos.
Uma loja física pode estar competindo não apenas com outra loja do bairro, mas também com empresas de outras cidades e grandes plataformas digitais.
O consumidor pesquisa:
“Quanto custa esse produto?”
“Tem frete grátis?”
“Existe uma opção mais barata?”
“Posso parcelar?”
“Quando chega?”
Essa mudança aumentou a pressão sobre o pequeno empreendedor.
Não basta mais ter um bom produto.
É necessário oferecer atendimento, preço competitivo, confiança, velocidade e, cada vez mais, presença digital.
5. A transformação digital virou uma necessidade
Ter presença na internet deixou de ser apenas uma estratégia para grandes empresas.
Hoje, um pequeno empreendedor pode utilizar:
WhatsApp;
Instagram;
marketplaces;
Google;
sites próprios;
sistemas de pagamento digital;
ferramentas de inteligência artificial;
plataformas de anúncios.
Isso cria oportunidades enormes.
Mas também cria uma nova dificuldade.
O empreendedor precisa aprender a utilizar essas ferramentas.
Quem não consegue acompanhar a transformação digital pode perder clientes para concorrentes mais preparados.
A inteligência artificial, por exemplo, pode ajudar pequenos negócios a criar anúncios, responder clientes, organizar informações e produzir conteúdo.
Por outro lado, quem não aprende a utilizar essas tecnologias pode ficar em desvantagem.
6. Falta de conhecimento empresarial também pesa
Nem todo empreendedor começa porque estudou administração.
Muitas pessoas começam porque sabem fazer alguma coisa muito bem.
Um excelente profissional de manutenção pode abrir uma empresa.
Uma ótima cozinheira pode montar um negócio de alimentação.
Um vendedor experiente pode abrir uma loja.
Um profissional de informática pode começar a prestar serviços.
Mas saber executar uma atividade não significa necessariamente saber administrar uma empresa.
São conhecimentos diferentes.
É necessário compreender pelo menos o básico de:
preço de venda, custos, margem de lucro, fluxo de caixa, estoque, marketing, negociação e planejamento.
Sem esses conhecimentos, o empreendedor pode trabalhar muito e ganhar pouco.
7. O empreendedor brasileiro também enfrenta a informalidade
A informalidade continua sendo uma característica importante do mercado de trabalho brasileiro.
Segundo o IBGE, a taxa anual de informalidade foi de 38,1% em 2025. O número de trabalhadores por conta própria chegou a 26,1 milhões.
O Sebrae estima que aproximadamente 20 milhões de pessoas viviam do empreendedorismo informal em levantamento referente a 2024, representando cerca de 66% do universo de empreendedores considerado no estudo.
A formalização pode trazer benefícios, mas também exige responsabilidades.
O desafio é criar condições para que a formalização seja vantajosa e compreensível para quem está começando.
8. Formalizar não significa automaticamente prosperar
Esse é um ponto importante.
Ter CNPJ não garante sucesso.
O empreendedor pode estar formalizado e continuar enfrentando:
baixa demanda;
pouca margem de lucro;
dívidas;
concorrência;
dificuldade de acesso a crédito;
problemas de gestão;
falta de capital de giro.
Um dos sinais dessa dificuldade aparece em estudo técnico do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, que analisou MEIs inscritos no CadÚnico.
Em julho de 2025, o estudo identificou 4,6 milhões de MEIs vinculados ao CadÚnico. Desse grupo, 67,5% estavam ativos, 32,4% apareciam como inaptos e 0,2% como suspensos.
Esse dado não significa que todos os MEIs inaptos fecharam definitivamente seus negócios, mas mostra que manter uma empresa regular e ativa pode ser um desafio significativo, especialmente entre empreendedores de menor renda.
9. O custo de errar é alto
Uma grande empresa pode cometer um erro e absorver o prejuízo.
Para um pequeno empreendedor, um erro pode comprometer o orçamento familiar.
Comprar estoque demais.
Alugar um ponto caro.
Escolher um produto que não vende.
Contratar alguém sem planejamento.
Pegar um empréstimo inadequado.
Vender sem calcular corretamente a margem.
Misturar dinheiro da empresa com dinheiro pessoal.
Cada uma dessas decisões pode provocar consequências importantes.
Por isso, administrar um pequeno negócio exige muito mais do que coragem.
Exige planejamento.
10. A fronteira entre empresa e família muitas vezes desaparece
Esse talvez seja um dos aspectos menos discutidos do empreendedorismo.
Em muitos pequenos negócios, o dinheiro da empresa é utilizado para pagar despesas pessoais.
O empreendedor também pode trabalhar além do horário normal porque não existe outra pessoa para assumir suas funções.
Isso cria uma situação delicada:
o negócio sustenta a família, mas a família também sustenta o negócio.
Quando as vendas caem, a renda familiar diminui.
Quando surge uma emergência familiar, o caixa da empresa pode ser utilizado.
Por isso, separar as finanças pessoais das empresariais é uma das práticas mais importantes para a sobrevivência do pequeno negócio.
11. O governo tem responsabilidade nesse cenário?
Sim, mas é importante fazer uma análise equilibrada.
Não seria correto afirmar que todas as dificuldades do microempreendedor são causadas pelo governo.
Empreender envolve riscos naturais do mercado.
Entretanto, políticas públicas podem facilitar ou dificultar significativamente a vida de quem empreende.
O Estado influencia o ambiente empresarial por meio de:
tributação;
burocracia;
crédito;
infraestrutura;
educação;
segurança;
legislação;
acesso à internet;
qualificação profissional;
políticas de incentivo;
compras públicas.
Quando essas condições funcionam melhor, o empreendedor tende a encontrar um ambiente mais favorável.
Quando são complexas ou caras, o custo acaba chegando ao consumidor e reduzindo a margem do pequeno negócio.
12. O problema não é apenas abrir empresas, mas fazê-las sobreviver
Esse é talvez o ponto central.
O Brasil possui uma grande capacidade de criação de pequenos negócios.
O Sebrae registrou 2,8 milhões de pequenos negócios criados entre janeiro e agosto de 2024, sendo os MEIs aproximadamente 78% das empresas abertas no período.
Mas abrir uma empresa é diferente de construir uma empresa sustentável.
O próprio IBGE acompanha justamente essa dinâmica de nascimento, morte e sobrevivência das empresas formais brasileiras por meio da pesquisa Demografia das Empresas.
Em 2022, por exemplo, o IBGE registrou 405,6 mil nascimentos de empresas empregadoras, com taxa de nascimento de 15,3%, a maior desde 2017 segundo a divulgação do instituto.
Esses dados mostram uma economia dinâmica, mas também reforçam a necessidade de políticas voltadas não apenas para a abertura de CNPJs, mas para a sobrevivência e o crescimento das empresas.
13. O que poderia melhorar a vida do microempreendedor?
Não existe uma solução única.
O problema é complexo e exige várias medidas trabalhando juntas.
Simplificação burocrática
Quanto menor a empresa, mais simples deveria ser a rotina administrativa.
O empreendedor precisa entender facilmente:
quanto deve pagar, quando deve pagar e o que precisa declarar.
Crédito com condições adequadas
Programas de crédito precisam considerar a realidade do pequeno negócio.
Mais importante do que simplesmente oferecer empréstimos é oferecer crédito sustentável, com condições que permitam ao empreendedor pagar sem comprometer completamente o fluxo de caixa.
Educação financeira
Ensinar empreendedorismo e educação financeira desde a escola poderia preparar melhor as próximas gerações.
Um empreendedor que sabe calcular custos, margem e fluxo de caixa possui melhores condições para tomar decisões.
Capacitação digital
Pequenos negócios precisam ter acesso a treinamento em comércio eletrônico, redes sociais, marketing digital, segurança digital e inteligência artificial.
Menos complexidade
O empreendedor deveria gastar mais tempo atendendo clientes e melhorando seu produto e menos tempo tentando entender processos burocráticos.
Incentivo à formalização
A formalização precisa representar uma vantagem real.
O pequeno empreendedor precisa perceber que estar regularizado abre portas para crédito, fornecedores, vendas para empresas maiores e participação em mercados que exigem documentação.
14. O que o próprio empreendedor pode fazer?
Embora políticas públicas sejam importantes, existem medidas que estão ao alcance do próprio empresário.
Uma das primeiras é separar o dinheiro pessoal do dinheiro da empresa.
Outra é controlar diariamente o fluxo de caixa.
Também é importante conhecer a margem de lucro de cada produto ou serviço.
Além disso:
faça pesquisa de preços;
controle o estoque;
evite dívidas desnecessárias;
negocie com fornecedores;
acompanhe as vendas;
conheça seus clientes;
invista em divulgação;
aprenda ferramentas digitais;
procure capacitação;
mantenha documentos e obrigações em dia;
crie uma reserva financeira quando possível.
Pequenas melhorias administrativas podem fazer uma grande diferença ao longo do tempo.
15. O futuro do microempreendedor brasileiro
Apesar dos problemas, os dados também mostram um lado positivo.
O brasileiro continua empreendendo.
Em 2024, aproximadamente 3,9 milhões de pessoas saíram da informalidade, sendo cerca de 2,5 milhões por meio da formalização como MEI e 1,4 milhão por meio da criação de micro e pequenas empresas, segundo levantamento do Sebrae.
Isso demonstra que existe uma enorme força empreendedora no país.
O desafio agora é transformar essa força em negócios mais produtivos, sustentáveis e capazes de gerar renda durante muitos anos.
A tecnologia pode ajudar.
O comércio eletrônico pode ajudar.
A inteligência artificial pode ajudar.
O crédito pode ajudar.
A capacitação pode ajudar.
Mas nenhuma dessas soluções funciona sozinha.
Conclusão: empreender no Brasil exige muito mais do que coragem
Ser microempreendedor brasileiro significa enfrentar uma combinação de desafios.
O empreendedor precisa lidar com concorrência, impostos, burocracia, crédito, tecnologia, fornecedores, clientes, gestão financeira e, muitas vezes, com a própria instabilidade da renda.
Os números mostram que esse grupo possui enorme importância para o país.
São milhões de brasileiros trabalhando por conta própria e milhões de empresas pequenas movimentando bilhões de reais na economia.
Por isso, a discussão não deveria ser simplesmente sobre incentivar as pessoas a abrir empresas.
O objetivo deveria ser criar condições para que elas consigam permanecer abertas, crescer e gerar renda.
O Brasil já possui uma população empreendedora enorme.
O próximo passo é construir um ambiente no qual o pequeno empreendedor não precise depender apenas de esforço e perseverança para sobreviver.
Empreendedorismo precisa de coragem, mas também precisa de condições para prosperar.
Dados e referências utilizadas
IBGE – PNAD Contínua: dados sobre trabalhadores por conta própria, informalidade, renda e mercado de trabalho.
IBGE – Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo: dados sobre nascimento, morte e sobrevivência das empresas brasileiras.
Sebrae – Atlas dos Pequenos Negócios: informações sobre MEIs, micro e pequenas empresas, renda e formalização.
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social: estudo sobre empreendedorismo entre famílias de baixa renda e MEIs registrados no CadÚnico.


