Quanto os governantes têm responsabilidade

Pelas dificuldades dos varejistas e microempreendedores no Brasil?

   O pequeno comércio brasileiro conhece bem uma situação que se repete todos os dias: vender mais, pagar funcionários, comprar mercadorias, manter as contas em dia, enfrentar concorrentes e, ao mesmo tempo, lidar com impostos, burocracia, juros, regras que mudam e pouco espaço para erros.

Mas até que ponto os problemas enfrentados pelos varejistas e microempreendedores são responsabilidade dos próprios empresários? E quanto dessa dificuldade está relacionada às decisões dos governos federal, estaduais e municipais?

A resposta não é simples. Não seria correto colocar toda a culpa nos governantes, porque gestão financeira, planejamento, capacitação, estoque, atendimento e estratégia comercial também fazem diferença. Por outro lado, também seria injusto responsabilizar exclusivamente o empreendedor quando ele está inserido em um ambiente econômico e regulatório que pode facilitar ou dificultar muito a sobrevivência de uma empresa.

Os números mostram que essa discussão merece atenção.

A força dos pequenos negócios na economia brasileira

Os pequenos negócios não são uma parte pequena da economia brasileira. Pelo contrário.

Dados divulgados pelo Sebrae em 2026 indicam que existem aproximadamente 24 milhões de pequenos negócios ativos no Brasil, representando cerca de 95% das empresas ativas e contribuindo com aproximadamente 26,5% do PIB nacional.

O mercado de trabalho também mostra a importância desse grupo.

Em 2024, as micro e pequenas empresas foram responsáveis por 1.222.972 empregos, aproximadamente sete em cada dez novas vagas geradas no país naquele ano, segundo levantamento do Sebrae com base nos dados do Caged.

Em janeiro de 2026, as MPEs responderam novamente por uma parcela expressiva da geração de empregos: 71.732 dos 112.334 novos postos de trabalho, equivalentes a aproximadamente 64% do total daquele mês.

Esses números deixam uma questão importante:

Se os pequenos negócios são responsáveis por uma parcela tão significativa dos empregos e da atividade econômica, as políticas públicas destinadas a eles deveriam ser tratadas como prioridade nacional?

A resposta parece ser sim.

Onde começa a responsabilidade dos governos?

Quando falamos em “culpa dos governantes”, é melhor utilizar o termo responsabilidade das políticas públicas.

Governos não controlam todas as dificuldades de uma empresa. Inflação, concorrência, comportamento dos consumidores, mudanças tecnológicas e crises internacionais também interferem nos negócios.

Entretanto, governos têm influência direta sobre diversos fatores que afetam o empreendedor.

Entre eles estão:

  • impostos;
  • burocracia;
  • legislação;
  • crédito público;
  • infraestrutura;
  • segurança;
  • qualificação profissional;
  • políticas de compras governamentais;
  • fiscalização;
  • ambiente regulatório;
  • transporte e logística;
  • energia;
  • programas de incentivo;
  • estabilidade das regras.

Por isso, existe uma parcela de responsabilidade pública que não pode ser ignorada.

1. A burocracia ainda representa um custo para quem empreende

Abrir uma empresa ficou muito mais rápido no Brasil nos últimos anos.

O próprio Mapa de Empresas, mantido pelo governo federal, mostra que o tempo médio para abertura de empresas chegou a aproximadamente 1 dia e 5 horas, com 69,9% das empresas abertas em menos de um dia em junho de 2026.

É uma evolução importante.

Porém, abrir uma empresa é apenas o primeiro passo.

Depois do CNPJ, começam outras obrigações: emissão de notas, declarações, impostos, licenças, registros, regras trabalhistas, exigências municipais e estaduais e diversas outras tarefas.

O desafio, portanto, não é somente abrir a empresa, mas conseguir administrá-la sem gastar uma parcela excessiva de tempo e dinheiro para cumprir obrigações burocráticas.

O próprio governo reconhece que a simplificação e a integração dos procedimentos continuam sendo objetivos importantes do ambiente de negócios.

O que poderia ser melhorado?

Uma política pública mais eficiente poderia buscar:

  • integração real dos sistemas federais, estaduais e municipais;
  • redução de obrigações repetidas;
  • linguagem mais simples;
  • calendário tributário unificado;
  • sistemas digitais mais fáceis;
  • maior estabilidade das regras;
  • orientação gratuita para pequenos empresários;
  • redução das exigências desnecessárias.

O empreendedor deveria gastar mais tempo vendendo e administrando o negócio e menos tempo tentando descobrir como cumprir uma obrigação.

2. Impostos: um dos pontos mais sensíveis

A tributação é provavelmente um dos assuntos que mais geram preocupação entre pequenos empresários.

O problema não é simplesmente pagar imposto. Toda sociedade precisa financiar serviços públicos.

A questão é quanto custa cumprir o sistema tributário e quão previsível ele é para quem administra uma pequena empresa.

O Brasil historicamente possui um sistema tributário complexo, com diferentes tributos, regras, obrigações acessórias e competências distribuídas entre União, estados e municípios.

A reforma tributária aprovada pela Emenda Constitucional nº 132/2023 busca justamente modificar profundamente a tributação sobre o consumo, substituindo gradualmente tributos como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS por uma nova estrutura baseada principalmente na CBS e no IBS.

Para o pequeno empreendedor, entretanto, reforma tributária não pode significar simplesmente trocar uma dificuldade por outra.

É fundamental que a transição seja acompanhada de:

  • orientação;
  • sistemas gratuitos;
  • capacitação;
  • regras claras;
  • previsibilidade;
  • redução da burocracia;
  • proteção ao capital de giro.

Caso contrário, o custo de adaptação pode acabar sendo proporcionalmente muito maior para uma pequena empresa do que para uma grande companhia.

3. Crédito: dinheiro caro pode impedir o crescimento

Uma empresa pode ter clientes, bons produtos e uma administração competente, mas ainda assim enfrentar problemas por falta de capital de giro.

Imagine uma pequena loja que precisa comprar R$ 30 mil em mercadorias, mas só receberá parte das vendas semanas depois.

Se o empreendedor não tiver dinheiro disponível, precisará buscar crédito.

É nesse momento que os juros fazem enorme diferença.

Crédito caro pode transformar uma oportunidade de crescimento em uma dívida difícil de administrar.

Estudos do Sebrae mostram que o acesso ao crédito está entre os fatores relevantes para a sobrevivência dos pequenos negócios. Em levantamento sobre sobrevivência empresarial, empresas que fecharam apresentaram menor acesso a crédito e menor capacidade de obtê-lo.

Isso mostra que políticas de crédito não deveriam ser pensadas apenas para grandes empresas.

O pequeno comércio também precisa de capital de giro para:

  • comprar estoque;
  • reformar uma loja;
  • investir em tecnologia;
  • contratar funcionários;
  • enfrentar períodos de queda nas vendas;
  • aproveitar oportunidades de compra;
  • expandir o negócio.

4. O varejo sofre especialmente quando o consumidor perde poder de compra

Existe outro ponto que muitas vezes passa despercebido.

O comerciante depende do consumidor.

Quando famílias precisam reduzir gastos, o comércio sente rapidamente.

Uma pessoa que antes comprava uma televisão nova pode adiar a compra. Quem comprava roupas todos os meses pode comprar apenas quando necessário. Uma família pode trocar restaurantes por refeições feitas em casa.

O problema chega ao varejista na forma de:

menos vendas → menor faturamento → menor margem → dificuldade para pagar despesas → necessidade de crédito.

Por isso, políticas econômicas que preservem o poder de compra da população também acabam afetando diretamente o comércio.

Não existe varejo forte em uma economia onde milhões de consumidores não conseguem consumir.

5. Infraestrutura também pesa no preço final

Imagine um pequeno comerciante que compra mercadorias de outro estado.

O produto precisa percorrer centenas ou milhares de quilômetros até chegar ao estabelecimento.

Nesse caminho existem:

  • combustível;
  • pedágios;
  • transporte;
  • armazenagem;
  • seguros;
  • impostos;
  • perdas;
  • atrasos;
  • problemas de infraestrutura.

Tudo isso pode chegar ao preço final.

Por isso, investimentos públicos em estradas, portos, ferrovias, mobilidade urbana, internet e energia não são apenas obras de infraestrutura.

Também são políticas de competitividade empresarial.

Quanto menor o custo para movimentar mercadorias, maior pode ser a capacidade de uma pequena empresa competir com empresas maiores.

6. Segurança pública também afeta o pequeno comércio

Para uma grande rede, uma perda em determinada loja pode representar uma pequena parcela do faturamento total.

Para um pequeno comerciante, um roubo de estoque, equipamento ou dinheiro pode representar meses de trabalho.

Além do prejuízo direto, existem outros custos:

  • seguro;
  • câmeras;
  • alarmes;
  • grades;
  • segurança privada;
  • perda de mercadorias;
  • interrupção das atividades.

Portanto, segurança pública também deve ser considerada uma política econômica.

Quando uma região comercial é insegura, o consumidor pode deixar de frequentá-la e o comerciante pode ser obrigado a gastar mais para proteger sua operação.

7. Mas o empresário também possui responsabilidades

Seria um erro transformar este artigo em uma simples acusação contra os governos.

O empreendedor também possui responsabilidades importantes.

O próprio Sebrae encontrou diferenças relevantes entre empresas que sobreviveram e aquelas que encerraram suas atividades.

Entre os fatores associados à sobrevivência aparecem planejamento, capacitação, acompanhamento financeiro, aperfeiçoamento de produtos, atualização tecnológica e gestão mais cuidadosa.

Isso significa que existem dois lados da equação.

O governo precisa criar um ambiente favorável.

O empresário precisa utilizar esse ambiente de maneira eficiente.

Não adianta reduzir impostos se a empresa não controla o caixa.

Não adianta oferecer crédito se o dinheiro é utilizado sem planejamento.

Não adianta abrir uma empresa rapidamente se o empreendedor não conhece seus custos.

Não adianta vender muito se cada venda gera prejuízo.

8. O comércio ainda enfrenta uma taxa preocupante de mortalidade

Um estudo do Sebrae baseado em dados da Receita Federal e pesquisas de campo mostrou que 29% dos MEIs encerram suas atividades após cinco anos, enquanto a taxa foi de 21,6% para microempresas e 17% para empresas de pequeno porte.

No comércio, a taxa de mortalidade chegou a 30,2% em cinco anos.

Esse dado é particularmente importante para discutir o varejo.

Significa que aproximadamente três em cada dez negócios comerciais analisados naquele estudo não chegaram ao quinto ano de atividade.

Isso não significa que todos fecharam por causa de impostos ou políticas governamentais.

O próprio estudo aponta fatores como planejamento, capacitação, gestão e acesso ao crédito.

Mas também mostra que o ambiente econômico pode aumentar ou diminuir a dificuldade enfrentada pelo empreendedor.

Afinal, quanto da culpa é dos governantes?

Não existe um percentual científico capaz de afirmar:

“O governo é responsável por 40%, 50% ou 70% dos problemas dos pequenos negócios.”

Seria irresponsável inventar esse número.

A realidade é mais complexa.

Podemos, entretanto, separar as responsabilidades.

Responsabilidade do poder público

O governo tem influência principalmente sobre:

Tributação: definição de impostos e regras.

Burocracia: quantidade e complexidade das obrigações.

Crédito público: criação de programas e garantias.

Infraestrutura: estradas, energia, internet, transporte e logística.

Segurança: proteção de comerciantes e consumidores.

Educação profissional: capacitação da população.

Estabilidade regulatória: previsibilidade das regras.

Compras públicas: oportunidades para pequenos fornecedores.

Responsabilidade do empresário

O empreendedor, por sua vez, precisa cuidar de:

Gestão financeira: saber quanto entra e quanto sai.

Formação de preços: calcular corretamente custos e margem.

Estoque: evitar excesso ou falta de produtos.

Atendimento: conquistar e manter clientes.

Marketing: encontrar novas formas de vender.

Tecnologia: utilizar ferramentas que aumentem produtividade.

Capacitação: aprender continuamente.

Planejamento: entender riscos antes de assumir dívidas.

A conclusão mais equilibrada é que o sucesso de uma empresa depende da combinação entre capacidade empresarial e ambiente econômico.

O que os governos poderiam fazer para ajudar mais?

Se o objetivo fosse criar um ambiente realmente favorável aos pequenos negócios, algumas medidas poderiam ter grande impacto.

1. Simplificar ainda mais os impostos

O pequeno empresário deveria conseguir descobrir facilmente quanto paga e por quê.

2. Criar crédito com condições adequadas

Especialmente capital de giro e financiamento para investimentos produtivos.

3. Ampliar garantias para pequenos negócios

Muitos empreendedores não conseguem crédito porque não possuem garantias suficientes.

4. Reduzir burocracias

Informações que o governo já possui não deveriam ser solicitadas repetidamente ao empresário.

5. Investir em infraestrutura

Estradas, internet, energia e logística mais eficientes reduzem custos.

6. Fortalecer a segurança nas áreas comerciais

Uma loja segura é melhor para o comerciante, para os funcionários e para o consumidor.

7. Capacitar o empreendedor

Programas gratuitos de gestão financeira, marketing, vendas, tecnologia e planejamento podem aumentar a sobrevivência dos negócios.

8. Utilizar o poder de compra do Estado

Governos compram bilhões de reais em produtos e serviços.

Facilitar a participação de pequenas empresas nessas compras pode gerar novos mercados.

9. Dar previsibilidade

Talvez uma das maiores ajudas que o governo possa oferecer seja simplesmente não mudar constantemente as regras.

Empreendedores precisam planejar hoje pensando nos próximos anos.

Uma política para pequenos negócios não é favor

Existe uma mudança de mentalidade que precisa acontecer.

Apoiar o microempreendedor não deve ser visto como distribuição de benefícios.

É uma política econômica.

Quando uma pequena loja cresce, ela pode contratar um funcionário.

Quando milhares de lojas crescem, são criados milhares de empregos.

Quando uma empresa compra de fornecedores locais, movimenta outra empresa.

Quando um comércio paga impostos, contribui para financiar serviços públicos.

Existe, portanto, um efeito multiplicador.

Os dados recentes reforçam essa importância: em 2024, as micro e pequenas empresas responderam por cerca de 70% dos empregos gerados no país, segundo o levantamento do Sebrae baseado no Caged.

O Brasil precisa escolher entre punir ou estimular quem produz?

Essa talvez seja a principal reflexão.

O empreendedor brasileiro já enfrenta riscos naturalmente.

Ele pode perder dinheiro.

Pode errar na escolha do estoque.

Pode enfrentar concorrentes.

Pode perder clientes.

Pode enfrentar uma crise econômica.

Pode trabalhar durante meses sem conseguir retirar um bom lucro.

Por isso, o papel do Estado deveria ser construir um ambiente no qual empreender seja difícil por causa do risco natural do negócio, e não por causa de obstáculos desnecessários criados pelo próprio sistema público.

O objetivo não deveria ser eliminar impostos, acabar com a fiscalização ou entregar dinheiro indiscriminadamente.

O objetivo deveria ser criar regras simples, impostos previsíveis, crédito acessível, infraestrutura adequada, segurança, capacitação e condições para competir.

Conclusão

Os problemas enfrentados pelos varejistas e microempreendedores brasileiros não podem ser colocados exclusivamente na conta dos governantes.

Também não podem ser colocados exclusivamente na conta dos empresários.

Os dados mostram que existe uma combinação de fatores.

De um lado, o empreendedor precisa melhorar gestão, planejamento, capacitação, controle financeiro e capacidade de adaptação.

Do outro, o poder público tem responsabilidade direta na construção do ambiente onde essas empresas funcionam.

Quando aproximadamente 24 milhões de pequenos negócios representam cerca de 95% das empresas ativas e 26,5% do PIB, enquanto as micro e pequenas empresas respondem por grande parte dos novos empregos, fica difícil tratar esse segmento como algo secundário.

O pequeno empreendedor não precisa necessariamente de privilégios.

Precisa de condições para competir.

Precisa saber quanto vai pagar.

Precisa conseguir crédito.

Precisa de segurança.

Precisa de infraestrutura.

Precisa de regras compreensíveis.

E, principalmente, precisa ter a sensação de que o Estado está criando condições para que ele produza, venda, contrate e cresça.

No final, ajudar o pequeno negócio não significa apenas ajudar o empresário.

Significa fortalecer empregos, renda, consumo e a própria economia brasileira.


Referências e fontes

  • Governo Federal — Mapa de Empresas: dados sobre empresas ativas, abertura e tempo médio de formalização.
  • IBGE — Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo: estudos sobre nascimento, morte e sobrevivência das empresas brasileiras.
  • Sebrae — Pequenos negócios: dados sobre participação no PIB e quantidade de empresas.
  • Sebrae/Caged — Empregos em 2024: dados sobre a participação das MPEs na geração de empregos.
  • Sebrae/Caged — Janeiro de 2026: dados sobre geração de empregos pelas micro e pequenas empresas.
  • Sebrae — Taxa de sobrevivência das empresas: fatores associados à sobrevivência e mortalidade empresarial.
  • Sebrae — Crédito para pequenos negócios: informações sobre acesso e negociação de recursos financeiros.
  • Sebrae — Reforma Tributária: explicações sobre as mudanças no sistema de tributação do consumo.

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