Entenda o que aconteceu, os números e como podemos reverter o problema
Introdução
Durante décadas, a expressão “buraco na camada de ozônio” assustou o mundo. A descoberta de uma forte redução do ozônio sobre a Antártida revelou que determinadas substâncias produzidas pela atividade humana poderiam destruir moléculas de ozônio na estratosfera e aumentar a quantidade de radiação ultravioleta (UV) que chega à superfície.
Mas existe uma boa notícia: a camada de ozônio não está simplesmente desaparecendo. As evidências científicas indicam que ela entrou em um processo de recuperação graças principalmente a medidas internacionais adotadas para reduzir e eliminar substâncias que destroem o ozônio.
Segundo a avaliação científica de 2022 da Organização Meteorológica Mundial (WMO) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), a recuperação continua avançando. A avaliação científica de 2026 está em preparação e deverá atualizar essas projeções.
Mas afinal, o que causou o problema, quanto da camada de ozônio foi perdido, ela pode realmente se recuperar e o que precisa ser feito para isso acontecer?
O que é a camada de ozônio?
A camada de ozônio não é uma “capa” sólida ao redor da Terra. Trata-se de uma região da estratosfera onde existe uma concentração relativamente maior de moléculas de ozônio (O₃), principalmente entre aproximadamente 15 e 35 quilômetros de altitude.
O ozônio tem uma função fundamental para a vida porque absorve grande parte da radiação ultravioleta do Sol, especialmente os tipos mais perigosos de radiação UV-B e UV-C.
Sem essa proteção natural, a exposição à radiação ultravioleta poderia aumentar significativamente os riscos para seres humanos, animais, plantas e ecossistemas.
Por isso, preservar o ozônio estratosférico é uma questão ambiental e também de saúde pública.
O que é o “buraco” na camada de ozônio?
O chamado buraco na camada de ozônio não significa que exista literalmente um buraco vazio na atmosfera.
O termo é utilizado para descrever uma região onde a quantidade total de ozônio fica extremamente reduzida, especialmente durante a primavera austral sobre a Antártida.
A NOAA utiliza como referência para definir a área do buraco valores inferiores a 220 Unidades Dobson (DU) de ozônio total. Em determinados anos, a região afetada pode atingir dezenas de milhões de quilômetros quadrados.
Portanto, é mais correto falar em forte redução ou rarefação do ozônio do que imaginar uma abertura física no céu.
Como a humanidade destruiu parte do ozônio?
A principal causa histórica foi o uso de determinadas substâncias químicas capazes de chegar à estratosfera.
Entre elas estão:
CFCs — clorofluorcarbonos;
halons;
tetracloreto de carbono;
metilclorofórmio;
brometo de metila;
HCFCs, em diferentes graus.
Esses compostos foram utilizados durante décadas em equipamentos de refrigeração, aerossóis, espumas, sistemas de combate a incêndio e outros processos industriais.
O problema acontece porque alguns desses gases podem permanecer durante muitos anos na atmosfera.
Ao chegarem à estratosfera, a radiação ultravioleta pode quebrar suas moléculas e liberar átomos de cloro e bromo.
Esses elementos participam de reações químicas que destroem o ozônio.
O processo é especialmente intenso sobre a Antártida durante determinadas condições atmosféricas, quando nuvens estratosféricas polares favorecem reações químicas que tornam o cloro altamente reativo.
Por que uma pequena quantidade de cloro pode causar um grande problema?
Uma das características mais preocupantes dos CFCs e de outras substâncias destruidoras do ozônio é que o cloro e o bromo podem participar de ciclos catalíticos.
Isso significa que um único átomo de cloro pode contribuir para a destruição de muitas moléculas de ozônio antes de ser removido do ciclo químico.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que concentrações relativamente pequenas dessas substâncias podem provocar efeitos atmosféricos muito maiores do que seria intuitivo imaginar.
A camada de ozônio está se recuperando?
Sim, as evidências científicas apontam para uma recuperação.
A avaliação científica WMO/UNEP de 2022 concluiu que as concentrações atmosféricas de cloro e bromo provenientes de substâncias controladas pelo Protocolo de Montreal continuaram diminuindo.
O relatório também identificou recuperação do ozônio na estratosfera superior.
Dados compilados pelo UNEP indicam que, entre 2000 e 2020, o ozônio da estratosfera superior em latitudes médias aumentou aproximadamente 1,5% a 2,2% por década, enquanto nos trópicos o aumento estimado ficou em torno de 1% a 1,5% por década.
Isso não significa que o problema acabou.
A recuperação é lenta, apresenta variações de ano para ano e ocorre de maneira diferente dependendo da região e da altitude.
Quando a camada de ozônio deverá voltar aos níveis de 1980?
De acordo com a avaliação científica de 2022, mantendo-se as políticas existentes e o cumprimento do Protocolo de Montreal, as projeções indicam aproximadamente:
| Região | Retorno aos níveis de 1980 |
|---|---|
| Média global entre 60°S e 60°N | por volta de 2040 |
| Ártico | por volta de 2045 |
| Antártida | por volta de 2066 |
Essas datas são projeções científicas, não uma previsão de calendário exata. Elas dependem da evolução das emissões, do clima e de outros processos atmosféricos.
Na Antártida, os modelos utilizados no estudo indicam uma recuperação em torno de 2066, com uma faixa de incerteza aproximadamente entre 2049 e 2077, dependendo principalmente da variabilidade dos processos atmosféricos e das condições futuras.
Por que a recuperação demora tanto?
Uma pergunta comum é: se os CFCs foram proibidos ou reduzidos, por que a camada não voltou ao normal rapidamente?
A resposta está na própria química da atmosfera.
Muitas substâncias destruidoras do ozônio possuem longos tempos de permanência atmosférica. Mesmo depois de interromper sua produção, parte desses compostos continua presente no sistema atmosférico.
Além disso, o cloro e o bromo já liberados podem continuar participando de processos químicos durante anos.
É parecido com fechar uma torneira de um reservatório contaminado: parar a entrada do contaminante é fundamental, mas a limpeza do sistema não acontece instantaneamente.
O Protocolo de Montreal funcionou?
Esse é provavelmente um dos exemplos mais importantes de cooperação ambiental internacional.
O Protocolo de Montreal, adotado em 1987, estabeleceu medidas para eliminar gradualmente diversas substâncias responsáveis pela destruição do ozônio.
Segundo o UNEP, as políticas adotadas levaram à eliminação gradual de quase 99% das substâncias destruidoras do ozônio que foram proibidas ou controladas pelo acordo.
O resultado foi tão significativo que os cientistas consideram que o protocolo colocou a camada de ozônio em uma trajetória de recuperação.
A proteção do ozônio também ajudou a combater o aquecimento global
Existe outra informação importante que muitas pessoas desconhecem.
As substâncias responsáveis pela destruição do ozônio também podem apresentar forte impacto climático.
De acordo com a avaliação científica WMO/UNEP, a redução das emissões de substâncias destruidoras do ozônio proporcionada pelo cumprimento do Protocolo de Montreal evita aproximadamente 0,5°C a 1°C de aquecimento global até meados do século, quando comparada a um cenário extremo de crescimento descontrolado dessas emissões.
Além disso, o UNEP estima que as ações de proteção do ozônio evitaram aproximadamente 135 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente entre 1990 e 2010.
Ou seja, proteger a camada de ozônio também trouxe benefícios importantes para o clima.
E o Acordo de Kigali?
Depois dos avanços obtidos com o controle dos CFCs, surgiu outro desafio.
Muitos HFCs foram utilizados como alternativas aos CFCs porque não destroem diretamente o ozônio da mesma maneira. Porém, vários HFCs possuem elevado potencial de aquecimento global.
Por isso, a Emenda de Kigali, adotada em 2016, estabeleceu a redução gradual da produção e do consumo de determinados HFCs.
A avaliação científica estima que a implementação da Emenda de Kigali poderá evitar aproximadamente 0,3°C a 0,5°C de aquecimento até 2100.
Isso mostra que a proteção da camada de ozônio e o combate às mudanças climáticas estão diretamente relacionados.
Então o problema está resolvido?
Ainda não.
Essa é uma parte importante que não deve ser ignorada.
Apesar da recuperação, o buraco sobre a Antártida continua aparecendo durante determinadas épocas do ano.
O tamanho e a duração do buraco podem variar significativamente de um ano para outro devido a condições meteorológicas e à dinâmica da atmosfera.
O UNEP destaca que o buraco antártico vem apresentando uma tendência de melhora desde aproximadamente 2000, mas continua ocorrendo.
Além disso, ainda existem emissões de algumas substâncias que podem afetar o ozônio.
O relatório científico também registrou preocupações relacionadas a emissões inesperadas de determinadas substâncias, mostrando que o monitoramento continua sendo essencial.
É possível reverter completamente o problema?
A resposta científica mais adequada é: é possível recuperar grande parte da camada de ozônio, e as evidências indicam que esse processo já está acontecendo.
Entretanto, “reverter” não significa apagar completamente os efeitos históricos.
O objetivo utilizado pelos cientistas é principalmente recuperar os níveis de ozônio observados por volta de 1980, antes do agravamento do buraco antártico.
Para isso, é necessário manter e fortalecer as medidas de proteção.
Como podemos ajudar na recuperação da camada de ozônio?
1. Manter o controle dos CFCs e outras substâncias destruidoras do ozônio
A primeira medida é impedir que substâncias já controladas voltem a ser utilizadas de forma inadequada.
Fiscalização, legislação e controle internacional continuam fundamentais.
2. Evitar vazamentos de gases refrigerantes
Equipamentos antigos de refrigeração e climatização podem conter substâncias que precisam ser recolhidas e descartadas corretamente.
A manutenção adequada reduz vazamentos e evita que gases potencialmente prejudiciais sejam liberados na atmosfera.
3. Fazer o descarte correto de equipamentos antigos
Geladeiras, aparelhos de ar-condicionado e outros equipamentos não devem simplesmente ser desmontados ou descartados sem controle.
O correto é procurar sistemas de coleta e empresas especializadas capazes de recuperar os gases refrigerantes.
4. Utilizar alternativas ambientalmente adequadas
A substituição de substâncias antigas precisa considerar não apenas a proteção do ozônio, mas também eficiência energética, segurança e impacto climático.
O painel técnico do Protocolo de Montreal continua avaliando tecnologias e alternativas para reduzir ou eliminar o uso de substâncias controladas.
5. Combater emissões ilegais e não declaradas
Mesmo com as proibições, emissões não autorizadas podem atrasar a recuperação.
O relatório científico de 2022 mostrou que emissões adicionais de CFC-11 entre 2012 e 2019 poderiam atrasar a recuperação do ozônio antártico em aproximadamente 0,5 a 3,1 anos, dependendo da quantidade emitida.
Esse número demonstra por que fiscalização e monitoramento continuam sendo necessários.
Existe risco de a camada de ozônio voltar a piorar?
Existe risco caso as medidas de proteção sejam abandonadas ou novas fontes importantes de substâncias destruidoras sejam liberadas.
Por isso, os cientistas acompanham continuamente a atmosfera.
O relatório de 2026 está sendo preparado para atualizar justamente temas como o estado atual da camada de ozônio, a evolução futura, o buraco antártico, emissões de substâncias controladas e a interação entre ozônio e mudanças climáticas. A previsão oficial é que a avaliação seja concluída até o final de 2026.
E a geoengenharia poderia recuperar a camada de ozônio?
Esse é um assunto que exige cuidado.
Algumas propostas de geoengenharia climática envolvem alterar deliberadamente processos atmosféricos para reduzir o aquecimento global. Porém, modificar a composição da estratosfera pode produzir efeitos inesperados sobre o ozônio.
Por isso, não é correto apresentar a geoengenharia como uma solução simples para “consertar” a camada de ozônio.
Os próprios painéis científicos do Protocolo de Montreal estão avaliando os possíveis impactos de determinadas tecnologias sobre a atmosfera.
A estratégia com maior respaldo científico continua sendo reduzir e controlar as substâncias que destroem o ozônio, além de monitorar continuamente a atmosfera.
O que acontece se a camada de ozônio continuar se recuperando?
A recuperação significa uma redução progressiva do risco associado à exposição adicional à radiação ultravioleta causada pela destruição do ozônio.
Isso beneficia:
saúde humana;
agricultura;
ecossistemas terrestres;
organismos marinhos;
biodiversidade;
materiais expostos à radiação solar.
A proteção também ajuda a preservar o equilíbrio de processos ambientais sensíveis à radiação UV.
A grande lição da camada de ozônio
A história da camada de ozônio apresenta uma lição importante para o mundo.
A humanidade identificou um problema ambiental global, desenvolveu pesquisas para entender sua causa, criou políticas internacionais, substituiu tecnologias e acompanhou os resultados durante décadas.
O resultado não foi imediato.
Mas os dados científicos indicam que a estratégia funcionou.
A recuperação prevista para as próximas décadas não significa que podemos relaxar. Pelo contrário: significa que manter as políticas ambientais e o monitoramento é essencial para não perder os avanços conquistados.
Conclusão
A camada de ozônio sofreu uma grave deterioração principalmente por causa de substâncias químicas produzidas e utilizadas pela sociedade, especialmente CFCs e outros compostos contendo cloro e bromo.
A boa notícia é que o problema pode ser parcialmente revertido — e a recuperação já está acontecendo.
As projeções científicas apontam para um retorno aos níveis de 1980 por volta de 2040 na média global, 2045 no Ártico e 2066 na Antártida, desde que as políticas de proteção continuem sendo respeitadas.
O caso também demonstra que acordos internacionais podem produzir resultados concretos quando são acompanhados por ciência, fiscalização, inovação tecnológica e cooperação entre países.
A camada de ozônio ainda precisa de proteção. Mas, ao contrário de algumas previsões pessimistas do passado, os dados científicos atuais oferecem uma das histórias ambientais mais positivas das últimas décadas.
Referências científicas
World Meteorological Organization (WMO) / United Nations Environment Programme (UNEP). Scientific Assessment of Ozone Depletion: 2022.
UNEP Ozone Secretariat. Facts and figures on ozone protection.
NOAA Chemical Sciences Laboratory. Scientific Assessment of Ozone Depletion: 2022.
UNEP. Ozone layer recovery is on track, helping avoid global warming by 0.5°C.
UNEP Ozone Secretariat. Informações sobre o Scientific Assessment Panel e avaliações científicas periódicas.
Observação editorial: a avaliação científica quadrienal de 2026 está em andamento. Portanto, as projeções numéricas de recuperação apresentadas neste artigo são as da avaliação WMO/UNEP de 2022; elas devem ser atualizadas quando a nova avaliação oficial de 2026 for publicada.

