Pessoas São Julgadas de Forma Injusta no Brasil? Entenda o Que as Pesquisas Revelam
A Justiça deve tratar todas as pessoas de maneira igual perante a lei. Esse princípio está previsto na Constituição Federal e representa um dos pilares do Estado Democrático de Direito.
Entretanto, pesquisadores brasileiros vêm estudando há décadas se fatores como cor da pele, classe social, tipo de defesa jurídica e condições econômicas podem influenciar, direta ou indiretamente, o funcionamento do sistema de justiça criminal.
É importante destacar que não existe evidência de que todas as decisões judiciais sejam injustas ou discriminatórias. Porém, diversos estudos apontam que determinados grupos sociais enfrentam maiores dificuldades ao longo da investigação criminal, do processo e da aplicação das penas.
Neste artigo, reunimos dados oficiais e pesquisas acadêmicas para compreender melhor esse cenário.
O que significa ser julgado injustamente?
Uma pessoa pode ser considerada injustamente julgada quando ocorre, por exemplo:
- condenação baseada em provas insuficientes;
- reconhecimento equivocado do suspeito;
- excesso de prisão preventiva;
- tratamento desigual durante o processo;
- dificuldade de acesso a uma defesa técnica eficiente.
Esses problemas podem ocorrer em qualquer sistema judicial do mundo.
A questão discutida por pesquisadores brasileiros é se determinados grupos estão mais expostos a essas situações.
O que dizem as pesquisas?
1. Estudos do CNJ apontam desigualdades raciais
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou pesquisas mostrando que o racismo estrutural pode se refletir no funcionamento cotidiano do sistema de justiça.
Segundo estudo divulgado pelo CNJ em 2024:
- práticas discriminatórias muitas vezes ocorrem de forma implícita;
- operadores do sistema nem sempre reconhecem essas desigualdades;
- existe necessidade de maior formação sobre igualdade racial no Judiciário. CNJ
Isso não significa que magistrados decidam intencionalmente com base na cor da pele, mas que fatores estruturais podem influenciar diferentes etapas do sistema.
2. Classe social também influencia
Uma pesquisa publicada na Revista CNJ analisou 303 processos de homicídio doloso em Belo Horizonte.
Os pesquisadores encontraram que:
- réus socialmente mais vulneráveis;
- pessoas com menor escolaridade;
- acusados com menor poder econômico;
tenderam a receber decisões mais severas quando comparados a pessoas em melhor condição socioeconômica.
Os autores concluíram que desigualdades sociais podem ser reproduzidas pelo sistema penal. CNJ
3. A importância da defesa jurídica
Outro fator frequentemente citado pelos pesquisadores é a qualidade da defesa.
Pessoas de maior renda costumam:
- contratar advogados especializados;
- produzir mais provas técnicas;
- apresentar perícias particulares;
- recorrer mais vezes das decisões.
Já cidadãos de baixa renda dependem, em muitos casos, da Defensoria Pública, que desempenha papel essencial, mas frequentemente enfrenta grande volume de processos.
Isso não significa que a defesa pública seja inferior, mas que há diferenças estruturais de recursos disponíveis.
A população negra está mais presente no sistema prisional?
Segundo dados do Ministério da Justiça citados pelo próprio CNJ:
- o Brasil possuía cerca de 670 mil pessoas presas até o final de 2024;
- aproximadamente 64,1% dessa população era composta por pessoas negras (pretas e pardas). CNJ
Esse dado, por si só, não prova discriminação judicial, pois não identifica as causas dessa distribuição. No entanto, pesquisadores consideram que a sobrerrepresentação da população negra no sistema prisional é um indicador que merece investigação e políticas públicas.
Prisão preventiva afeta principalmente pessoas pobres?
Diversos estudos apontam que pessoas em situação de vulnerabilidade social enfrentam maior dificuldade para responder ao processo em liberdade.
Entre os fatores analisados estão:
- residência fixa;
- vínculo empregatício;
- documentação;
- acesso à defesa.
Essas condições podem influenciar decisões processuais, embora devam ser avaliadas caso a caso conforme a legislação.
O reconhecimento por fotografia continua sendo um problema?
Especialistas em Direito Penal afirmam que erros de reconhecimento continuam entre as principais causas de condenações equivocadas em diversos países.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) vêm reforçando a necessidade de seguir rigorosamente os procedimentos previstos no Código de Processo Penal para reduzir o risco de identificações incorretas. CNJ
O racismo estrutural significa que toda condenação é racista?
Não.
Esse é um ponto importante.
Quando pesquisadores utilizam o termo racismo estrutural, eles não afirmam que todos os juízes, promotores ou policiais agem por preconceito.
O conceito descreve situações em que desigualdades históricas e sociais podem influenciar resultados institucionais, mesmo sem intenção consciente dos agentes envolvidos. Esse entendimento aparece em pesquisas recentes do CNJ.
O que pode ser feito para reduzir injustiças?
Especialistas sugerem medidas como:
- fortalecimento da Defensoria Pública;
- capacitação permanente de policiais e operadores do Direito;
- padronização de procedimentos de reconhecimento de suspeitos;
- ampliação do uso de provas periciais e científicas;
- monitoramento estatístico das decisões judiciais;
- transparência nos dados do sistema de justiça.
O objetivo dessas propostas é reduzir erros e aumentar a confiança da sociedade nas instituições.
Conclusão
As pesquisas disponíveis indicam que fatores como vulnerabilidade social, cor da pele e acesso desigual aos recursos de defesa podem estar associados a diferenças no funcionamento do sistema de justiça brasileiro. Contudo, esses estudos não permitem concluir que todas as condenações ou decisões sejam motivadas por discriminação. Em vez disso, apontam para desafios estruturais que vêm sendo debatidos por pesquisadores, pelo Conselho Nacional de Justiça e por outras instituições.
Fortalecer a produção de dados, ampliar a transparência e investir em políticas que garantam igualdade de tratamento são caminhos apontados para aperfeiçoar o sistema e reduzir o risco de decisões injustas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Pessoas negras recebem penas maiores no Brasil?
Alguns estudos acadêmicos identificaram associação entre vulnerabilidade social, raça/cor e decisões mais severas em determinados contextos, mas os resultados variam conforme o tipo de processo e não significam que isso ocorra em todos os casos. CNJ
Pessoas pobres têm mais dificuldade na Justiça?
Pesquisas indicam que limitações econômicas podem afetar o acesso à defesa, à produção de provas e aos recursos judiciais. CNJ
Existe comprovação de racismo estrutural no Judiciário?
O CNJ publicou pesquisas apontando evidências de práticas institucionais e desigualdades relacionadas ao racismo estrutural no sistema de justiça, defendendo políticas para enfrentá-las. CNJ


