A queratina é uma proteína naturalmente presente no cabelo e desempenha um papel importante na estrutura e resistência da fibra capilar. Por isso, produtos que contêm queratina ou proteínas hidrolisadas passaram a fazer parte da rotina de muitas pessoas que procuram cabelos com aparência mais alinhada, macia e resistente.
Mas existe uma diferença importante entre usar queratina em produtos de tratamento capilar e realizar procedimentos conhecidos popularmente como “progressiva de queratina”, “escova de queratina” ou “alisamento brasileiro”.
Enquanto a queratina hidrolisada pode atuar sobre a fibra capilar, ajudando a melhorar determinadas propriedades físicas do fio, alguns procedimentos de alisamento utilizam substâncias químicas e calor intenso. Dependendo da formulação, podem existir riscos importantes para o cabelo e para a saúde.
Por isso, antes de escolher qualquer tratamento, é importante entender o que realmente existe dentro do produto.
O que é a queratina?
A queratina é uma proteína estrutural encontrada em estruturas do corpo humano, incluindo cabelos e unhas. No cabelo, proteínas de queratina participam da formação da fibra capilar e contribuem para suas propriedades mecânicas.
A fibra do cabelo possui diferentes regiões, incluindo cutícula, córtex e medula. O córtex representa uma parte importante da estrutura interna do fio e está relacionado às suas propriedades mecânicas.
Pesquisadores vêm estudando diferentes formas de queratina e seus derivados para aplicações cosméticas.
Um estudo publicado no International Journal of Cosmetic Science investigou queratinas hidrolisadas de diferentes pesos moleculares em cabelos texturizados que haviam passado por relaxamento químico. Os pesquisadores observaram que moléculas menores conseguiam penetrar mais profundamente na fibra, enquanto moléculas maiores tendiam a permanecer principalmente na superfície. Alguns dos tratamentos avaliados também apresentaram melhora nas propriedades mecânicas e redução da quebra dos fios em determinadas condições de umidade.
Isso ajuda a explicar por que a palavra “queratina” aparece com tanta frequência em produtos destinados à reconstrução e ao condicionamento dos cabelos.
Para que serve a queratina no cabelo?
A principal finalidade cosmética da queratina e de proteínas hidrolisadas é contribuir para o condicionamento e a melhoria da aparência da fibra capilar.
Dependendo da formulação, concentração, peso molecular da proteína e estado do cabelo, podem ser observados efeitos como:
melhora da sensação de maciez;
redução temporária da aspereza;
melhora da aparência dos fios danificados;
aumento da sensação de resistência;
redução da aparência de frizz;
formação de uma película sobre a fibra;
melhora do brilho e do aspecto geral do cabelo.
É importante, porém, não confundir melhoria cosmética do fio com regeneração biológica.
O cabelo que já saiu do couro cabeludo é uma estrutura queratinizada. Um cosmético pode melhorar suas características físicas e sua aparência, mas não transforma um fio severamente danificado em um cabelo biologicamente “novo”.
Queratina realmente fortalece o cabelo?
Existem evidências experimentais de que determinados tipos de queratina hidrolisada podem melhorar propriedades mecânicas da fibra capilar.
Em um estudo publicado em 2021, pesquisadores trabalharam com peptídeos de queratina de aproximadamente 221 Da, 2.577 Da e 75.440 Da. Os resultados mostraram diferenças importantes na penetração dos peptídeos e indicaram que peptídeos de peso molecular médio e alto poderiam aumentar o módulo de Young e reduzir a quebra em determinadas condições de umidade.
Outro estudo experimental, publicado em 2023, avaliou uma combinação de queratina hidrolisada, serina e uma enzima chamada transglutaminase em amostras de cabelos danificados. Nesse experimento, a solubilidade alcalina diminuiu 50,53%, enquanto a tensão de ruptura aumentou de 1,031 N para 1,806 N e a deformação na ruptura aumentou de 9,51 para 19,88 mm.
Esses números são interessantes, mas precisam ser interpretados corretamente: são resultados de experimentos específicos em fibras capilares, e não significam que qualquer produto vendido como “queratina” produzirá exatamente os mesmos efeitos.
Quais são os principais benefícios da queratina?
1. Pode melhorar a aparência de cabelos danificados
Cabelos submetidos frequentemente a coloração, descoloração, calor e processos químicos podem apresentar cutículas mais ásperas e maior fragilidade.
Produtos contendo proteínas hidrolisadas podem ajudar a melhorar temporariamente a aparência e determinadas propriedades da fibra.
2. Pode ajudar na redução da quebra
Algumas pesquisas experimentais indicam que determinadas proteínas e peptídeos de queratina podem melhorar propriedades mecânicas dos fios.
Entretanto, isso não significa que a queratina seja capaz de impedir completamente a quebra.
3. Pode melhorar a textura
A deposição de proteínas sobre a fibra pode alterar a sensação do cabelo ao toque, deixando-o aparentemente mais uniforme e condicionado.
4. Pode contribuir para o brilho
Uma superfície capilar mais uniforme tende a refletir a luz de maneira diferente, proporcionando uma aparência mais brilhante.
5. Pode ajudar cabelos que passaram por processos químicos
A pesquisa publicada em 2021 é especialmente interessante porque avaliou cabelos texturizados que haviam passado por relaxamento químico. Os resultados mostraram que diferentes tamanhos de peptídeos apresentaram comportamentos diferentes dentro da fibra.
Isso reforça a ideia de que a formulação importa tanto quanto o ingrediente.
Quem pode se beneficiar de tratamentos com queratina?
Em termos gerais, produtos cosméticos com queratina podem ser interessantes para pessoas que apresentam cabelos:
ressecados;
ásperos;
quebradiços;
danificados por processos químicos;
submetidos frequentemente ao uso de secador ou chapinha;
com aparência opaca;
que passaram por coloração ou descoloração.
Mas isso não significa que todo cabelo precise de queratina.
Um cabelo saudável, pouco danificado e bem condicionado pode não apresentar necessidade de tratamentos frequentes de reconstrução.
Cuidado: queratina não é sinônimo de alisamento
Esse é um dos pontos mais importantes.
A expressão “tratamento com queratina” pode ser utilizada comercialmente para descrever produtos e procedimentos bastante diferentes.
Alguns produtos apenas condicionam e tratam cosmeticamente a fibra. Outros procedimentos são destinados a modificar a forma ou a estrutura do cabelo e podem envolver ativos químicos específicos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explica que os alisantes são produtos capazes de modificar quimicamente a estrutura do cabelo para alisar, relaxar ou ondular os fios. Esses produtos precisam ser regularizados de acordo com as normas sanitárias.
Portanto, não é correto concluir que um produto é seguro simplesmente porque aparece no rótulo a palavra “queratina”.
E a famosa progressiva de queratina?
A chamada “progressiva de queratina” ganhou popularidade por oferecer a promessa de cabelos mais lisos, alinhados e com menos frizz.
Uma revisão científica publicada em 2013 sobre tratamentos brasileiros com queratina observou que esses procedimentos eram comercializados com promessas de deixar os cabelos mais fáceis de manejar, reduzir o frizz, aumentar o brilho e melhorar a aparência. Entretanto, os autores também chamaram atenção para o fato de que diversos produtos utilizados profissionalmente continham formaldeído ou derivados.
Por isso, é fundamental verificar a composição do produto e não confiar somente no nome comercial do procedimento.
Formol: um cuidado que não pode ser ignorado
No Brasil, o formol não pode ser utilizado como agente alisante capilar.
A Anvisa afirma que o uso do formol como alisante é proibido e alerta que a utilização inadequada pode provocar irritação, queimaduras, descamação, queda dos cabelos e problemas respiratórios, entre outros efeitos.
Em 2025, a Anvisa publicou um informe específico alertando sobre riscos associados a alisantes capilares irregulares, incluindo produtos com formol e ácido glioxílico, destacando possíveis danos ao couro cabeludo, sistema respiratório e estrutura dos fios.
A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, também alerta que determinados produtos de alisamento e suavização podem liberar formaldeído quando aquecidos. A exposição pode provocar irritação dos olhos, nariz e garganta, tosse, chiado, náusea, irritações na pele e outros efeitos. A agência também classifica o formaldeído como carcinógeno humano.
Por isso, o uso de produtos que liberam formaldeído durante o aquecimento merece atenção especial.
Como usar queratina com segurança?
O primeiro passo é identificar qual tipo de produto está sendo utilizado.
Se for uma máscara, condicionador ou leave-in contendo queratina hidrolisada, siga exatamente as instruções do fabricante.
Se for um produto destinado a alisar ou modificar quimicamente o cabelo, o cuidado deve ser ainda maior.
Faça o teste de mecha
O teste de mecha é uma das principais recomendações para procedimentos químicos.
Ele ajuda a observar como aquele cabelo específico reage à formulação.
Isso é particularmente importante quando os fios já passaram por:
descoloração;
tintura;
relaxamento;
permanente;
outras formas de alisamento;
uso frequente de calor.
Não aplique produto químico sobre couro cabeludo lesionado
A Anvisa orienta que produtos alisantes não sejam aplicados quando o couro cabeludo estiver irritado ou lesionado.
Evite misturar produtos químicos
Misturar diferentes produtos químicos sem conhecimento profissional pode aumentar o risco de incompatibilidade entre ativos e causar quebra ou danos ao couro cabeludo.
Respeite o tempo de ação
Mais tempo de exposição não significa necessariamente um resultado melhor.
Produtos químicos devem permanecer nos cabelos somente pelo período indicado pelo fabricante.
Cuidado com a temperatura
Procedimentos que utilizam chapinha ou fontes de calor podem aumentar a exposição a determinados componentes da formulação.
Quando existe possibilidade de liberação de substâncias irritantes durante o aquecimento, a ventilação do ambiente torna-se especialmente importante.
Queratina pode causar queda de cabelo?
A queratina cosmética, por si só, não deve ser confundida automaticamente com uma causa de queda.
O problema pode estar relacionado ao procedimento químico, formulação inadequada, irritação do couro cabeludo, excesso de processamento ou quebra da fibra.
A Anvisa alerta que produtos alisantes irregulares podem provocar quebra e queda dos cabelos, além de queimaduras e irritações.
Também é importante diferenciar queda desde a raiz de quebra do fio.
Quando o cabelo quebra, muitas vezes a pessoa percebe fios menores, pontas irregulares e redução do comprimento. Já a queda verdadeira envolve a saída do fio desde o folículo.
Se houver queda intensa, falhas no couro cabeludo, coceira persistente, feridas ou descamação importante, é recomendável procurar avaliação de um dermatologista.
Queratina demais pode fazer mal ao cabelo?
Mais produto não significa necessariamente mais tratamento.
O excesso de procedimentos reconstrutores, principalmente quando combinado com processos químicos e calor, pode deixar alguns cabelos rígidos ou com sensação áspera.
Por isso, a frequência deve levar em consideração o estado real do cabelo.
Um cabelo muito danificado pode se beneficiar de estratégias de reconstrução, hidratação e condicionamento. Já um cabelo saudável pode precisar apenas de manutenção básica.
A rotina ideal não deve ser baseada apenas em um ingrediente.
Queratina para cabelos cacheados e crespos
Cabelos cacheados e crespos também podem utilizar produtos contendo queratina.
Entretanto, é importante diferenciar tratamento cosmético de alisamento.
A pesquisa sobre queratinas hidrolisadas em cabelos texturizados mostrou que diferentes tamanhos de moléculas apresentam diferentes comportamentos na fibra capilar. No estudo, os pesquisadores trabalharam especificamente com cabelo muito crespo que havia passado por relaxamento químico.
Portanto, não existe uma regra dizendo que cabelos cacheados ou crespos não podem utilizar queratina.
O que precisa ser avaliado é o objetivo do tratamento e a composição do produto.
Grávidas, lactantes e crianças podem usar?
Essa pergunta exige cuidado porque depende do produto específico.
Produtos cosméticos simples contendo proteínas podem ter uma avaliação diferente de produtos destinados a modificar quimicamente a estrutura dos cabelos.
No caso dos alisantes, a Anvisa determina advertências específicas e orienta que gestantes e lactantes consultem um médico antes da utilização. A Agência também informa que alisantes capilares não são destinados a crianças.
Portanto, não é recomendável generalizar todos os produtos que possuem “queratina” no nome.
Como escolher um produto de queratina?
Antes de comprar, observe:
1. Lista de ingredientes
Não escolha somente pelo nome comercial.
2. Registro ou regularização
No caso de produtos alisantes, consulte a situação do produto nos canais oficiais da Anvisa.
3. Indicação de uso
Confira se o produto é uma máscara, condicionador, tratamento reconstrutor ou alisante.
4. Instruções do fabricante
Respeite tempo de aplicação, quantidade e forma de uso.
5. Histórico do cabelo
Um cabelo recentemente descolorido pode exigir muito mais cuidado do que um cabelo virgem.
6. Procedência
Evite produtos sem identificação adequada, sem composição conhecida ou vendidos com promessas exageradas.
O que dizem os estudos?
A ciência sobre queratina capilar é interessante, mas ainda precisa ser interpretada com cautela.
Uma pesquisa publicada em 2021 demonstrou que diferentes pesos moleculares de queratina hidrolisada apresentam diferentes capacidades de penetração na fibra capilar.
Um estudo de 2023 encontrou mudanças mensuráveis nas propriedades mecânicas de fios danificados tratados experimentalmente com queratina hidrolisada, serina e transglutaminase.
Outra pesquisa publicada em 2025 estudou o uso de queratina hidrolisada para proteção contra danos provocados pela radiação ultravioleta. Nesse experimento, a resistência à tração do cabelo tratado foi mantida após exposição à radiação, enquanto o cabelo não tratado apresentou redução de 14,32% nessa propriedade.
Além disso, uma avaliação de segurança publicada pelo Cosmetic Ingredient Review analisou oito ingredientes derivados de queratina utilizados em cosméticos e concluiu que eram seguros nas condições de uso e concentrações avaliadas.
Esses resultados mostram potencial para aplicações cosméticas, mas não significam que qualquer produto comercial de queratina tenha o mesmo desempenho.
Queratina faz o cabelo crescer?
Essa é uma das maiores dúvidas.
A queratina aplicada externamente ao cabelo não deve ser apresentada como um tratamento comprovado para fazer o cabelo crescer mais rapidamente.
O crescimento ocorre no folículo piloso, dentro do couro cabeludo.
Um estudo recente, publicado em 2026, investigou peptídeos de queratina hidrolisada administrados por via oral em camundongos e também avaliou células humanas em laboratório. Os pesquisadores observaram efeitos relacionados a mecanismos de crescimento capilar nesses modelos. Porém, isso não significa que aplicar queratina cosmeticamente no cabelo faça o cabelo crescer. São situações completamente diferentes.
Essa distinção é fundamental para evitar falsas promessas.
Afinal, vale a pena usar queratina?
Para muitas pessoas, produtos contendo queratina podem ser úteis como parte de uma rotina de cuidados, especialmente quando os cabelos estão danificados ou apresentam necessidade de condicionamento e reconstrução.
Entretanto, o resultado depende de vários fatores:
tipo de cabelo;
grau de dano;
formulação;
concentração;
tamanho das proteínas utilizadas;
frequência de aplicação;
exposição ao calor;
histórico de tratamentos químicos.
O mais importante é não acreditar que qualquer produto chamado “queratina” seja automaticamente um tratamento milagroso.
Conclusão
A queratina é uma proteína fundamental para a estrutura dos cabelos e possui aplicações relevantes na indústria cosmética. Pesquisas experimentais mostram que proteínas e peptídeos de queratina hidrolisada podem interagir com a fibra capilar e melhorar determinadas propriedades físicas dos fios.
Os benefícios mais realistas estão relacionados à aparência, condicionamento, resistência mecânica e redução da quebra em determinadas condições.
Por outro lado, procedimentos de alisamento que utilizam produtos químicos exigem muito mais atenção. No Brasil, o formol não pode ser utilizado como ativo alisante, e a Anvisa mantém alertas sobre produtos irregulares e riscos associados ao uso inadequado de alisantes.
Portanto, antes de realizar qualquer procedimento, vale a pena olhar além da propaganda: verificar a composição, conferir a regularização do produto quando aplicável, fazer o teste de mecha e procurar um profissional qualificado.
Cuidar do cabelo não significa buscar o produto mais forte, mas encontrar o tratamento adequado para a condição daquele fio.
Referências científicas e institucionais
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Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Orientações e alertas sobre alisantes capilares.
U.S. Food and Drug Administration (FDA). Informações de segurança sobre produtos de alisamento que podem liberar formaldeído quando aquecidos.
Aviso: este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação individual de dermatologista ou outro profissional habilitado. Em caso de reação, queimadura, queda intensa ou irritação persistente após procedimento químico, procure atendimento profissional.
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