como surgiu, quem foram os primeiros seres a praticá-lo e o que a ciência descobriu sobre a sexualidade humana?
Por Cleber Bispo
Falar sobre sexo costuma despertar curiosidade, mas poucas pessoas param para pensar em uma pergunta muito mais antiga: quando começou a reprodução sexual?
A resposta surpreende. O sexo não começou com os seres humanos, nem sequer com os primeiros mamíferos. A reprodução sexual surgiu na história da vida muito antes da existência da nossa espécie. Quando os primeiros seres humanos passaram a se relacionar sexualmente, eles estavam dando continuidade a um processo biológico que já tinha uma história evolutiva de centenas de milhões de anos.
Mas afinal, como surgiu o sexo? Quem foram os primeiros seres a praticá-lo? Como os seres humanos descobriram a relação sexual? E por que o sexo também envolve prazer, emoções, vínculos e cultura?
A ciência possui algumas respostas — e também muitas perguntas ainda sem solução.
O sexo não foi “inventado” pelos seres humanos
É comum imaginar que, em algum momento da pré-história, um homem e uma mulher descobriram que uma relação sexual poderia resultar no nascimento de um bebê.
Provavelmente não aconteceu dessa maneira.
A reprodução sexual surgiu muito antes dos seres humanos. O registro fóssil é limitado, porque comportamentos reprodutivos raramente deixam marcas preservadas. Mesmo assim, existem evidências extraordinárias.
Um exemplo está nos peixes placodermos que viveram há aproximadamente 380 milhões de anos. Pesquisadores encontraram fósseis contendo embriões dentro do corpo da fêmea e evidências compatíveis com fertilização interna. Um dos fósseis, Materpiscis attenboroughi, representa uma das evidências mais antigas conhecidas de reprodução com gestação em um vertebrado.
Outro estudo publicado na revista Nature descreveu evidências de fertilização interna em placodermos do Devoniano, também com aproximadamente 380 milhões de anos.
Isso significa que a reprodução sexual envolvendo mecanismos bastante complexos já existia muito antes dos dinossauros dominarem a Terra.
Então quem foram os primeiros a fazer sexo?
Essa é uma das perguntas mais interessantes — e uma das mais difíceis de responder.
Não sabemos qual foi o primeiro organismo a realizar reprodução sexual.
A evolução não funciona como uma invenção criada em determinado dia. Características biológicas aparecem gradualmente através de inúmeras gerações.
Além disso, existem diferentes formas de reprodução sexual entre organismos. Em algumas espécies ocorre encontro de gametas; em outras, existem mecanismos completamente diferentes daqueles encontrados nos mamíferos.
Por isso, não existe um registro arqueológico capaz de mostrar:
“Aqui está o primeiro casal da história da Terra.”
O que sabemos é que a reprodução sexual é extremamente antiga e apareceu muito antes da espécie humana.
E quando o sexo surgiu entre os ancestrais humanos?
Aqui a história fica ainda mais interessante.
Os seres humanos fazem parte da ordem dos primatas. Nossos ancestrais evolutivos compartilhavam características com outros primatas, e muitos desses animais também apresentam comportamentos sexuais complexos.
Pesquisas sobre a evolução da sexualidade humana indicam que características relacionadas ao comportamento sexual provavelmente foram moldadas por processos evolutivos ao longo de milhões de anos.
Uma revisão publicada no American Journal of Physical Anthropology analisou a sexualidade humana sob uma perspectiva evolutiva e discutiu modelos sobre como a sexualidade dos hominínios pode ter mudado ao longo da evolução.
Entretanto, existe uma importante ressalva:
não temos como reconstruir exatamente como era a vida sexual dos primeiros humanos.
Fósseis podem revelar ossos, dentes, tamanho corporal e algumas características anatômicas. Já comportamentos íntimos, preferências, sentimentos e práticas sexuais deixam pouquíssimas evidências.
Sexo entre Homo sapiens e neandertais
Uma das evidências mais fascinantes da história sexual humana apareceu graças à genética.
Durante milhares de anos, Homo sapiens e neandertais viveram em regiões próximas e tiveram contato.
E eles não apenas encontraram uns aos outros.
Eles tiveram descendentes.
Estudos genéticos mostram que populações humanas ancestrais cruzaram com neandertais. Atualmente, pessoas com ancestralidade não africana possuem, em média, cerca de 2% de DNA de origem neandertal, embora a quantidade varie entre populações e indivíduos.
Pesquisas mais recentes conseguiram restringir o período de uma importante fase de mistura genética para aproximadamente 45 mil a 50 mil anos atrás.
Isso é uma demonstração impressionante de como a genética moderna consegue revelar acontecimentos que ocorreram dezenas de milhares de anos atrás.
Uma descoberta de 2026 trouxe uma nova pista
Um estudo publicado na revista Science em fevereiro de 2026 acrescentou uma informação curiosa à história.
Pesquisadores analisaram diferenças na contribuição genética entre humanos modernos e neandertais e encontraram evidências de que a mistura entre os dois grupos apresentou um forte viés relacionado ao sexo.
O estudo encontrou um excesso relativo de 62% de ancestralidade humana moderna no cromossomo X dos neandertais, resultado interpretado pelos autores como evidência de que o cruzamento teria ocorrido predominantemente entre homens neandertais e mulheres Homo sapiens.
Isso não significa que sabemos exatamente como eram os relacionamentos entre os dois grupos.
Também não significa que podemos afirmar quais eram suas preferências individuais.
O resultado apenas mostra como a genética pode fornecer pistas sobre acontecimentos reprodutivos ocorridos há dezenas de milhares de anos.
Mas como os primeiros humanos descobriram o sexo?
Provavelmente, essa pergunta parte de uma premissa equivocada.
Os primeiros seres humanos não precisaram necessariamente “descobrir” o sexo como alguém descobre uma ferramenta.
O comportamento sexual está relacionado a mecanismos biológicos profundamente enraizados nos animais.
Diversas espécies apresentam comportamentos sexuais sem que exista qualquer evidência de que tenham desenvolvido uma compreensão racional da reprodução semelhante à nossa.
Nos seres humanos, provavelmente ocorreu uma combinação entre:
- instintos biológicos;
- hormônios;
- atração;
- comportamento social;
- reprodução;
- vínculo entre indivíduos;
- aprendizagem;
- cultura.
Com o desenvolvimento das sociedades humanas, o sexo passou a receber significados que vão muito além da reprodução.
Sexo não serve apenas para gerar filhos
Durante grande parte da história evolutiva, a reprodução foi obviamente uma das principais consequências biológicas do sexo.
Mas sexualidade humana não pode ser reduzida simplesmente à reprodução.
A Organização Mundial da Saúde define sexualidade de maneira muito mais ampla, envolvendo aspectos como sexo, identidade de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A organização também destaca que a sexualidade é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais, econômicos, históricos e outros.
Isso ajuda a explicar por que diferentes sociedades desenvolveram normas e costumes muito diferentes sobre relacionamento, casamento, fidelidade, reprodução e sexualidade.
O cérebro também participa do sexo
Sexo não é apenas uma reação dos órgãos sexuais.
O cérebro desempenha papel central na atração, no desejo, na excitação, no prazer, na formação de vínculos e nas respostas emocionais.
Hormônios e neurotransmissores participam desses processos, mas a sexualidade humana é complexa demais para ser explicada por uma única substância ou por um único “hormônio do amor”.
Experiências individuais, relacionamentos, expectativas, cultura, educação e contexto social também influenciam o comportamento sexual.
Por isso, dois indivíduos podem vivenciar a sexualidade de maneiras completamente diferentes.
E por que o sexo pode proporcionar prazer?
Do ponto de vista evolutivo, o prazer sexual pode funcionar como um mecanismo que favorece comportamentos associados à reprodução e à formação de vínculos.
Mas existe uma característica importante da sexualidade humana: sexo e reprodução podem ser separados.
Métodos contraceptivos modernos permitem relações sexuais sem que necessariamente ocorra gravidez. Da mesma maneira, técnicas de reprodução assistida permitem a reprodução sem uma relação sexual.
Essa separação modificou profundamente a relação da humanidade com a sexualidade.
Quando os seres humanos começaram a entender que sexo produzia bebês?
Também não existe uma data conhecida.
É razoável imaginar que comunidades humanas pré-históricas observassem uma relação entre relações sexuais, gravidez e nascimento. Entretanto, observar uma sequência de acontecimentos é diferente de compreender biologicamente como ocorre a fecundação.
A explicação científica do processo levou milhares de anos para se desenvolver.
Hoje sabemos que a reprodução humana normalmente envolve a união de um espermatozoide com um óvulo, formando uma célula inicial que posteriormente pode originar um embrião.
Essa compreensão é relativamente recente quando comparada com toda a história da humanidade.
A sexualidade também mudou com a cultura
Uma das características mais interessantes da espécie humana é que o sexo passou a ser influenciado pela cultura.
Religiões, leis, tradições, casamento, família, costumes, moralidade e regras sociais ajudaram a determinar o que diferentes sociedades consideravam aceitável ou proibido.
Isso significa que existe uma diferença entre:
sexo como fenômeno biológico
e
sexualidade como fenômeno humano.
O primeiro está ligado à reprodução e à biologia.
O segundo envolve também emoções, identidade, relações, valores, comportamento e sociedade.
A própria OMS considera a sexualidade um aspecto central da vida humana e reconhece que ela é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais.
O que significa ter uma vida sexual saudável?
A ciência moderna também mudou a maneira de enxergar o sexo.
Saúde sexual não significa simplesmente não possuir uma doença.
Segundo a definição de trabalho da Organização Mundial da Saúde, saúde sexual envolve bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade, além de uma abordagem positiva e respeitosa das relações sexuais.
Isso inclui aspectos como:
- consentimento;
- respeito;
- segurança;
- prevenção de infecções sexualmente transmissíveis;
- prevenção de gravidez não planejada;
- acesso a informações confiáveis;
- liberdade de coerção e violência;
- cuidado com a saúde física e emocional.
Portanto, falar sobre sexo também significa falar sobre saúde.
O sexo continua sendo um dos grandes mistérios da evolução
Apesar de todos os avanços científicos, ainda existem muitas perguntas sem respostas definitivas.
Não sabemos exatamente quando surgiu a primeira reprodução sexual.
Não sabemos como eram os comportamentos sexuais dos primeiros hominínios.
Não sabemos quais eram seus sentimentos, preferências ou regras sociais.
E muito menos podemos apontar quem foi o primeiro ser humano a fazer sexo.
O que a ciência consegue fazer é reconstruir partes dessa história usando fósseis, anatomia comparada, genética, arqueologia e estudos comportamentais.
E os resultados já são extraordinários.
Sabemos que a reprodução sexual é muito mais antiga que a humanidade. Sabemos que vertebrados praticavam fertilização interna há aproximadamente 380 milhões de anos. Sabemos que humanos modernos cruzaram com neandertais dezenas de milhares de anos atrás. E sabemos que a sexualidade humana envolve muito mais do que reprodução.
Conclusão
A história do sexo é, na realidade, uma parte da própria história da vida.
Muito antes de existirem cidades, religiões, famílias, leis ou sociedades organizadas, organismos já utilizavam estratégias reprodutivas que permitiam transmitir seus genes às gerações seguintes.
Milhões de anos depois, a evolução produziu seres humanos capazes não apenas de se reproduzir, mas também de experimentar desejo, prazer, intimidade, vínculos emocionais e diferentes formas de relacionamento.
Por isso, quando perguntamos “quem descobriu o sexo?”, talvez a melhor resposta científica seja:
ninguém descobriu. O sexo não foi uma invenção humana. Ele é resultado de uma longa história evolutiva que começou muito antes de nossa espécie existir.
E quanto mais a ciência investiga essa história, mais percebemos que entender a sexualidade também significa entender a evolução, o cérebro, o corpo humano, a sociedade e a própria história da vida na Terra.


