Por que algumas doenças que quase desapareceram estão voltando?

  Durante décadas, algumas doenças infecciosas deixaram de fazer parte da rotina de muitas famílias. Sarampo, poliomielite, rubéola, difteria e coqueluche, por exemplo, passaram de problemas frequentes para doenças muito menos comuns graças à vacinação, ao saneamento, à vigilância epidemiológica e à melhoria das condições de vida.

Mas existe um fenômeno preocupante: algumas dessas doenças estão voltando a aparecer em determinados países e comunidades.

Isso não significa que todas estejam retornando da mesma maneira ou que tenham voltado a ser um problema generalizado. Em muitos casos, o que está acontecendo é a formação de bolsões de pessoas suscetíveis à infecção, permitindo que um vírus ou bactéria volte a circular quando é introduzido em uma população.

O sarampo é um dos exemplos mais claros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em 2024, aproximadamente 11 milhões de pessoas foram infectadas pelo sarampo no mundo, enquanto cerca de 95 mil morreram da doença. Apesar desses números, a mortalidade por sarampo caiu 88% entre 2000 e 2024, mostrando simultaneamente o enorme sucesso da vacinação e o perigo provocado pelas lacunas de imunização.

O que significa uma doença “quase desaparecer”?

É importante diferenciar três situações.

Uma doença pode ser:

  • Controlada: os casos diminuíram bastante, mas a doença continua circulando.

  • Eliminada em uma região: a transmissão contínua foi interrompida naquele território, embora casos possam ser importados de outros países.

  • Erradicada mundialmente: a transmissão natural da doença foi interrompida em todo o planeta.

A varíola é o exemplo clássico de doença erradicada. Já a poliomielite ainda não foi erradicada mundialmente.

O Brasil, por exemplo, não registra circulação de poliovírus selvagem desde 1990, mas a doença continua existindo em algumas partes do mundo. A OMS alerta que o vírus pode ser levado para países livres da doença e se espalhar rapidamente entre pessoas não imunizadas.

Por isso, desaparecer temporariamente dos hospitais não significa necessariamente que uma doença tenha deixado de representar uma ameaça.


A vacinação é uma das maiores responsáveis por esse avanço

Existe uma razão importante para determinadas doenças terem se tornado raras: as vacinas funcionam.

Um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre o impacto da vacinação foi publicado em 2024 na revista científica The Lancet. Pesquisadores analisaram 50 anos do Programa Ampliado de Imunização da OMS, entre 1974 e 2024.

A estimativa foi impressionante:

154 milhões de mortes foram evitadas pela vacinação durante esse período.

Desse total, aproximadamente 146 milhões eram crianças menores de cinco anos, incluindo 101 milhões de bebês com menos de um ano. O estudo também estimou cerca de 9 bilhões de anos de vida ganhos graças à vacinação.

O sarampo teve papel especialmente importante. Segundo o estudo, a vacinação contra a doença foi responsável por aproximadamente 93,7 milhões de vidas salvas, equivalentes a cerca de 60,8% de todas as vidas salvas pelas vacinas analisadas durante os 50 anos.

Esses números ajudam a explicar por que determinadas doenças praticamente desapareceram do cotidiano de várias gerações.

O problema é que, quando a doença deixa de ser vista, algumas pessoas podem deixar de perceber a importância de continuar se protegendo.


1. A queda da cobertura vacinal abre espaço para o retorno

Uma das principais explicações para o ressurgimento de doenças preveníveis é a queda ou desigualdade na vacinação.

Em 2024, a OMS estimou que 14,3 milhões de crianças no mundo não receberam nenhuma vacina, sendo classificadas como crianças “zero dose”. A cobertura global da primeira dose da vacina contra o sarampo chegou a 84%, enquanto a segunda dose ficou abaixo disso.

Para doenças extremamente contagiosas, como o sarampo, pequenas quedas na cobertura podem criar comunidades onde o vírus encontra pessoas suficientes para continuar sua transmissão.

É por isso que a chamada imunidade coletiva é tão importante.

Quando uma grande parcela da população está protegida, fica mais difícil para o agente infeccioso encontrar pessoas suscetíveis. Quando a quantidade de pessoas não imunizadas aumenta, essa barreira fica mais fraca.


2. O sarampo mostra como o problema funciona

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas conhecidas.

Mesmo países que conseguiram interromper a transmissão contínua podem registrar novos casos depois que uma pessoa infectada chega de uma região onde o vírus ainda circula.

O Brasil oferece um exemplo interessante.

O país recebeu, em 2016, a certificação de eliminação da circulação do sarampo. Entretanto, a partir de 2018 houve novamente transmissão no território brasileiro, associada à introdução do vírus e a coberturas vacinais insuficientes.

Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39 mil casos de sarampo no Brasil.

O Brasil voltou a receber a certificação de eliminação da circulação endêmica do sarampo em novembro de 2024. Entretanto, isso não significa que o vírus deixou de representar qualquer risco.

Em 2025, o Ministério da Saúde registrou 38 casos confirmados no país, incluindo um surto no Tocantins com 25 casos. Segundo o próprio Ministério, 84% dos casos desse surto ocorreram em uma comunidade com baixa cobertura vacinal, na qual todos os indivíduos afetados não tinham registro de vacinação contra o sarampo.

O exemplo mostra uma característica importante das doenças infecciosas:

a eliminação pode ser perdida quando a proteção da população diminui.


3. A pandemia de COVID-19 também deixou consequências

Outro fator importante foi a interrupção ou redução de serviços de saúde durante a pandemia.

Em diversos lugares, consultas de rotina foram adiadas, campanhas de vacinação foram prejudicadas e famílias tiveram dificuldade para chegar aos serviços de saúde.

Mesmo depois da retomada das atividades, recuperar todas as pessoas que ficaram sem suas doses exige tempo e organização.

A OMS informou que, em 2024, a cobertura global de algumas vacinas de rotina ainda permanecia abaixo dos níveis registrados antes da pandemia.

Isso significa que o impacto da pandemia não terminou simplesmente quando as restrições sociais acabaram.

Existe também uma espécie de “dívida de vacinação”: pessoas que perderam doses precisam ser identificadas e, quando indicado pelos profissionais de saúde, colocadas novamente em dia.


4. A desinformação também influencia as decisões

A internet trouxe enormes benefícios para a disseminação de informações, mas também facilitou a circulação de conteúdos falsos ou enganosos sobre vacinas.

Mensagens sem base científica podem provocar medo, criar dúvidas ou apresentar casos isolados como se fossem provas de que uma vacina não funciona.

Isso é particularmente perigoso porque doenças infecciosas não desaparecem simplesmente porque deixamos de falar sobre elas.

O desaparecimento de uma doença pode ser justamente uma consequência do sucesso da vacinação.

Quando uma geração cresce sem conhecer alguém que teve poliomielite, por exemplo, pode ser difícil imaginar o impacto que a doença causava no passado.

No entanto, a ausência de casos não significa necessariamente ausência de risco.


5. Viagens internacionais podem reintroduzir doenças

Vivemos em um mundo altamente conectado.

Uma pessoa pode viajar de um país para outro em poucas horas. Se estiver infectada, pode levar um vírus ou bactéria para uma região onde a doença já não circula normalmente.

Isso é especialmente relevante para doenças que continuam presentes em determinadas regiões do planeta.

No caso do sarampo, por exemplo, a OMS considera a doença um importante indicador das falhas de imunização porque o vírus se espalha rapidamente quando encontra populações vulneráveis.

Por isso, um país pode estar livre da transmissão endêmica e ainda registrar casos importados.

A diferença está na capacidade de impedir que esses casos gerem uma cadeia de transmissão prolongada.


6. A coqueluche também voltou a chamar atenção

O retorno de doenças não acontece somente com o sarampo.

A coqueluche, uma infecção respiratória que pode ser especialmente perigosa para bebês, também apresentou aumento importante no Brasil.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 7.440 casos confirmados de coqueluche em 2024, o maior número de notificações da doença em uma década.

O Ministério aponta entre os fatores possíveis a natureza cíclica da doença, a retomada das interações sociais depois da pandemia e a redução das coberturas vacinais observada entre 2016 e 2021.

Esse caso mostra que o ressurgimento de uma doença geralmente não possui uma única causa.

Pode envolver vacinação, comportamento da população, circulação do agente infeccioso, características próprias da doença e capacidade de diagnóstico e vigilância.


7. E a poliomielite?

A poliomielite talvez seja um dos exemplos mais importantes de por que não devemos baixar a guarda.

A doença causou milhões de casos de paralisia ao longo da história. Graças à vacinação, os casos de poliomielite diminuíram mais de 99% desde 1988, segundo a OMS.

Mas a doença ainda não foi erradicada.

O Brasil não registra circulação de poliovírus selvagem desde 1990. Mesmo assim, o Ministério da Saúde destaca que a cobertura vacinal contra a poliomielite permaneceu abaixo da meta de 95% desde 2016 em diferentes períodos, aumentando o risco de reintrodução.

Enquanto o vírus continuar circulando em alguma parte do mundo, países livres da doença precisam manter sistemas de vacinação e vigilância funcionando.


8. Por que 95% é um número tão importante?

Não existe uma porcentagem única que sirva para todas as doenças.

O nível de vacinação necessário para impedir a transmissão depende de características do agente infeccioso, como sua capacidade de transmissão.

O sarampo, por exemplo, é extremamente contagioso. Por isso, a manutenção de cobertura próxima ou superior a 95% é utilizada como referência para proteger comunidades contra surtos.

Dados do CDC mostram que a cobertura de MMR entre crianças da educação infantil nos Estados Unidos caiu de 95,2% no ano letivo de 2019–2020 para 92,5% em 2024–2025. O órgão estima que aproximadamente 286 mil crianças ficaram em situação de maior vulnerabilidade durante aquele período escolar.

Isso demonstra que uma queda aparentemente pequena na porcentagem nacional pode representar centenas de milhares de pessoas suscetíveis.

E existe outro detalhe importante: a média nacional pode esconder regiões com cobertura muito menor.

Um município pode apresentar bons índices enquanto determinado bairro ou comunidade possui muitas pessoas não vacinadas.

É nesses “bolsões de baixa cobertura” que um vírus pode encontrar condições para se espalhar.


9. Não é apenas uma questão de escolha individual

A vacinação possui uma dimensão individual e coletiva.

Quando uma pessoa se vacina, ela reduz o próprio risco de desenvolver determinadas doenças. Ao mesmo tempo, contribui para diminuir a circulação do agente infeccioso.

Isso é particularmente importante para pessoas que não podem receber determinadas vacinas por razões médicas ou para grupos que ainda não possuem idade suficiente para completar seus esquemas de vacinação.

Por isso, a imunização é considerada uma das principais ferramentas de saúde pública.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente no Brasil vacinas para diferentes fases da vida e possui um dos programas de imunização mais abrangentes do mundo.


10. O Brasil está recuperando suas coberturas?

Há sinais positivos.

Segundo o Ministério da Saúde, 15 das 16 principais vacinas do calendário infantil apresentaram aumento de cobertura em 2024 em comparação com períodos anteriores.

Entre os destaques está a primeira dose da tríplice viral, que passou de 80,7% para 96,3% em menos de dois anos, segundo os dados apresentados pelo Ministério.

Também houve aumento no número de municípios que alcançaram a meta de 95% para determinadas vacinas.

No caso da primeira dose da tríplice viral, o número de municípios brasileiros que alcançaram a meta passou de 2.485 em 2022 para 3.870 em 2024, crescimento de aproximadamente 55,7%.

São avanços importantes, mas a situação precisa continuar sendo acompanhada.

A vacinação não funciona como uma conquista definitiva.

É necessário manter as coberturas elevadas ao longo do tempo.


11. O que pode acontecer se a vacinação continuar caindo?

O cenário mais preocupante é a criação de uma cadeia de transmissão.

Imagine uma comunidade onde quase todos estão protegidos. Um caso importado chega, mas encontra poucas pessoas suscetíveis. A transmissão tende a ser interrompida.

Agora imagine outra comunidade onde muitas pessoas estão sem proteção.

O mesmo caso pode infectar várias pessoas, que posteriormente infectarão outras.

Assim, uma doença que parecia pertencer ao passado pode voltar a aparecer em escolas, famílias, hospitais e comunidades.

O sarampo deixa essa dinâmica particularmente evidente.

Em 2024, aproximadamente 84% das crianças do mundo receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo e apenas 76% receberam a segunda, segundo estimativas da OMS. Ao mesmo tempo, foram estimadas cerca de 11 milhões de infecções.


12. Quais são as principais razões para o retorno dessas doenças?

Não existe uma única explicação. Os principais fatores são:

Queda da cobertura vacinal

Menos pessoas protegidas significa maior quantidade de indivíduos suscetíveis.

Interrupção dos serviços de saúde

Crises sanitárias, guerras, pobreza e dificuldades de acesso podem impedir a vacinação.

Desinformação

Conteúdos falsos podem gerar medo e diminuir a confiança nas vacinas.

Falta de acompanhamento das doses

Algumas vacinas exigem mais de uma dose para completar a proteção recomendada.

Viagens internacionais

Pessoas infectadas podem transportar doenças para regiões onde elas não circulam normalmente.

Desigualdade social

Populações com menor acesso aos serviços de saúde podem apresentar coberturas vacinais mais baixas.

Falhas na vigilância

Quanto mais tarde uma doença é identificada, maior pode ser a possibilidade de transmissão.

Esquecimento do perigo

Quando uma doença desaparece durante muitos anos, parte da população pode deixar de perceber por que a prevenção continua sendo necessária.


Vacinação: uma conquista que precisa ser mantida

Existe uma ironia na história das vacinas.

Quanto mais eficientes elas são, menos vemos as doenças que ajudaram a controlar.

Isso pode fazer parecer que essas doenças nunca foram realmente perigosas.

Os dados científicos contam uma história diferente.

A análise publicada em The Lancet estimou que os programas de vacinação evitaram 154 milhões de mortes em 50 anos e proporcionaram cerca de 9 bilhões de anos de vida adicionais.

Ao mesmo tempo, os dados recentes sobre sarampo mostram que as doenças preveníveis podem voltar quando surgem grandes lacunas de imunização.

Portanto, o retorno de algumas doenças não significa que as vacinas tenham deixado de funcionar.

Na maioria dos casos, significa exatamente o contrário: quando a vacinação consegue manter uma população protegida, a doença encontra dificuldade para circular; quando a proteção diminui, a oportunidade de transmissão aumenta.


O que cada pessoa pode fazer?

A melhor atitude é manter a vacinação atualizada de acordo com as recomendações das autoridades de saúde.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda consultar o Calendário Nacional de Vacinação e procurar uma unidade de saúde quando houver dúvidas sobre doses atrasadas ou necessárias.

Também é importante:

  • verificar a caderneta de vacinação;

  • procurar uma unidade de saúde em caso de dúvidas;

  • evitar compartilhar informações de saúde sem verificar a fonte;

  • consultar profissionais de saúde para situações individuais;

  • incentivar familiares a manterem a vacinação em dia;

  • acompanhar comunicados oficiais durante surtos.

Não é necessário entrar em pânico diante de cada notícia sobre uma doença.

O mais importante é compreender que prevenção contínua é justamente o que impede que pequenos focos se transformem em grandes surtos.


Conclusão

Doenças como sarampo, poliomielite e coqueluche mostram que as conquistas da medicina não devem ser consideradas permanentes.

Uma doença pode deixar de ser comum durante décadas e voltar a circular quando encontra uma população suficientemente vulnerável.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema: 154 milhões de mortes evitadas por vacinação em 50 anos, quase 94 milhões de vidas salvas especificamente pela vacinação contra o sarampo no período analisado pelo estudo do The Lancet, e milhões de crianças ainda sem acesso adequado à imunização em diferentes partes do mundo.

O desafio não é apenas desenvolver novas vacinas. Também é garantir que as vacinas já disponíveis cheguem às pessoas certas, no momento adequado, com informação confiável e acompanhamento dos programas de imunização.

A história mostra que muitas doenças não desapareceram por acaso.

Elas diminuíram porque a sociedade decidiu preveni-las.

E manter essa conquista depende de continuar fazendo isso.


Fontes e referências científicas

  1. Shattock AJ et al. Contribution of vaccination to improved survival and health: modelling 50 years of the Expanded Programme on Immunization. The Lancet. 2024;403(10441):2307–2316. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)00850-X.

  2. World Health Organization (WHO). Global immunization efforts have saved at least 154 million lives over the past 50 years. 2024.

  3. World Health Organization (WHO). Immunization coverage. Atualização de 2025, com dados globais de 2024.

  4. World Health Organization (WHO). Measles deaths down 88% since 2000, but cases surge. 2025.

  5. Ministério da Saúde do Brasil. Situação Epidemiológica do Sarampo. Dados nacionais atualizados.

  6. Ministério da Saúde do Brasil. Situação Epidemiológica da Coqueluche.

  7. Ministério da Saúde do Brasil. Poliomielite — informações epidemiológicas e vacinação.

  8. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Measles Cases and Outbreaks. Dados sobre cobertura vacinal e surtos.

Aviso importante

Este artigo tem finalidade informativa e educacional. Informações sobre vacinação devem ser avaliadas de acordo com a idade, histórico de saúde e recomendações vigentes das autoridades sanitárias e de profissionais de saúde. O conteúdo não substitui uma consulta médica ou orientação individualizada.

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